SOU MAIS OU MENOS ASSIM

SOU MAIS OU MENOS ASSIM

14/06/2018

E O TEMPO VELHO SE VAI... ATROPELANDO


E O TEMPO VELHO SE VAI... ATROPELANDO.
É mais um aniversário
deste bugre Contendeiro.
Num vinte e três de janeiro,...
sob a era de aquário,
acordei o vizindário
num fundão de mataria.
Era mais um que nascia
não pra ser rico ou famoso
mas pra andar e fazer pouso
no lombo da poesia.

Quanta lembrança me bate.
Primeiro emprego (oficial)
vendendo disco e jornal,
bugigangas de mascates.
E a turma de engraxates,
onde andarão meus parceiros?
Emocionou-se um campeiro....
A saudade é um veneno
e... por ter os olhos pequenos
eu sempre choro primeiro.


 

AH... OS MEUS SESSENTA ANOS




AH... OS MEUS SESSENTA ANOS.

Hoje cheguei aos sessenta...
Foram anos bem vividos!
Minha gente, meus amigos,
meu rancho que o sol aquenta.
A idade não me apoquenta,
sigo na lida, peleando,
pedindo ajuda, ajudando,
sem mudar meu jeito cru
pois quem nasceu pra tatu
há de morrer cavocando.
 
- AH, MEUS TEMPOS DE CRIANÇA!
Calças rotas, pés descalços...
Mas isto não foi percalço
pois guardo lindas lembranças.
Foi sublime a minha infância
pois mil "relíquias" eu tive,
carro-de-lomba em declive,
brinquedos de campo e mato,
parece que sem sapatos
até andava mais livre...
 
Já mocito, venta aberta,
eu gauderiei o que pude.
- AH... A MINHA JUVENTUDE!  
Corpo cheio, alma deserta.
Mas tudo tem hora certa
e acabei “garrando” o rumo.
Botei a vida no prumo
e hoje só bato asas
quando, num canto da casa,
dentro de um poema eu me sumo.
 
Esse tempo que me resta
quero levar, meio assim,
regando as flores de mim
e podando o que não presta.
Aqui e ali uma festa,
ser mais útil,  mais humano
e lhes conto, tenho planos
de outros janeiros viver
pra, com saudades, dizer:
- AH... OS MEUS SESSENTA ANOS...
 
Ao Supremo Arquiteto meu eterno agradecimento por cada dia.
A cada amigo e amiga, um beijo no coração.
 
 
 


CRENÇA



CRENÇA

O verde, o viço, vem a perecer
qual folha seca esvoaçando ao léu
mas na energia entre terra e céu
há muito mais do que podemos ver
e tudo, um dia, há de renascer
de quem se foi ouvireis a voz.
Tenham a certeza, não estamos sós
a prova está em quem sangrou a cruz
e agora vive sendo guia e luz
que ilumina a cada um de nós.
 
 
 

MAÇAMBIQUES


Melhor Tema da 19ª Sesmaria da Poesia de Osório
declamador Neiton Perufo, o tamboreiro Jeferson Lima e o guitarreiro Adão Quevedo
MAÇAMBIQUES
- Estou ouvindo os tambores...
... e vem lá do Morro Alto!
Cruzam, no mais, o asfalto
 expressando os seus valores.
São os Reis os portadores
desta ancestral tradição.
Cantos, danças, percussão,
neste festejo que irmana
a pátria-mãe africana
com Osório, meu rincão.  
  
Vem chamando o vizindário,
entre cortejos e ritos,
pra louvar São Benedito
e a Senhora do Rosário.
Santos Negros, relicários,
do Maracatu e Congado
Dois nomes que são sagrados
nos ranchos de pau-a-pique
que viraram Maçambique
na parte Norte do Estado.
 
Cada grupo de cantores
tem vinte e quatro integrantes
e a Vara de Dançantes
é dividida por cores
com dois Reis e os seguidores,
guardiões da Padroeira.
A Côrte Maçambiqueira
tem também três Tamboreiros,
os Soldados e o Festeiro,
o Alferes e a Bandeira.
 
É o passado e o presente
unidos na devoção
peleando contra a exclusão  
destes Afro-descendentes.
São negros remanescentes
dos  Quilombos nas florestas
que vão mantendo o que resta
deste costume qu’encanta,   
pés descalços, roupas brancas,
dançando pagam promessas.
 
Vem na brisa do oceano
e se esparrama na praça
astrais de louvor e graça
em outubro de cada ano.
No mastro o sagrado pano
vai tremulando em pendão.
Como é linda a evocação
que pelas ruas s’espalha
junto ao som das Maçacalhas,
geração, pós geração.
 
Mas falta mais atenção,
mais ajuda, mais apoio...
A velha Conceição do Arroio
não pode deixar na mão
quem mantém a devoção
de forma tão verdadeira.
Esta festa é uma bandeira
contra a discriminação social.
É... Patrimônio Imaterial
da Cultura Brasileira!
 
Mando um recado nas rimas
de bons frutos, bons presságios,
a vila de Caravággio
por sustentarem esta sina.
Ao Antônio, a Severina,
Rei e Rainha, a nobreza,
que tenham “doces nas mesas”,
que não percam seus primores,
que no rufar dos tambores
ecoe força e beleza.
 
Que na festa que permeia,
o povo traga sua fé,
de Capão, de Maquiné,
Itati, Terra de Areia...
Que as almas fiquem cheias
de amor e contentamento.
Maçambique é um documento
da história desta cidade,
Maçambique é a identidade
da Terra de Todos os Ventos.
 

Léo Ribeiro recebe o troféu das mãos do Poeta Homenageado da 
19ª Sesmaria da Poesia Gaúcha, Vaine Darde


 
 
 
 

VOCÊ AMANHÃ


 

Valorize teus momentos, aproveite tua vida,
cante, chore, dê guarida, não te apegue a gente vã,
seja humilde nas vitórias e aprenda nas perdidas
pra dizer: "Missão Cumprida",  ao chegar teu amanhã.   
 
Léo Ribeiro
 
 
 

MEU JEITO




Para os que não me conhecem,
sou como áurea de santo,
redondo, não tenho canto
e nem lado pra chegar.
A mim me gusta escutar,
sou bugre de pouca fala
mas, até o silêncio se cala
quando me ponho a cantar.

Sou destes índios teimosos
pois trago sangue de Souza
e o meu empo em frente a lousa
não serviu pra me mudar.
De pouco adianta estudar
só pra buscar galhardia.
A minha sabedoria
é a natureza quem dá.

Cresci em meio a humildade
cruzando manhãs de frio,
lavando cavalo em rios,
dando adeus de mão em mão.
Eu te garanto "ermão",
quem viveu no meu estilo
por certo morre tranquilo
que a morte não foi em vão.

Hoje há milhões de pessoas
buscando imortalidade....
É porque, na realidade,
não souberam aproveitar
um bom vinho, um costilhar,
um chimarrão com a patroa
uma tarde de garoa
e o campo aberto pra andar.

Neste contexto gaudério,
terrunha filosofia,
eu utilizo a poesia
pra expressar meus sentimentos.
Encordoando lamentos,
alegrias, gauchadas,
eu levo a vida flauteada
sem afrouxar nenhum tento.

E o versejar que destilo,
de humildade franciscana,
tem na querência serrana
a fonte de inspiração.
Se todos louvassem o chão
que foi seu primeiro ninho
mesmo aquele sem padrinho
não ia morrer pagão.

Talvez por isso é que canto
recuerdos de muitos anos
do meu berço campechano
onde a paixão fez morada.
Folhas mortas nas calçadas
anunciando o frio de agosto,
uma história em cada rosto,
um retorno em cada estrada.

Pois não é qualquer querência
que cruza mais de cem anos
cortado de minuano
sem perder a pose altiva.
Te carrego sempre viva
São Chico por onde ande,
flor campeira do Rio Grande,
linda, doce e lenitiva.

Espero que minhas letras
cheirando a pasto e raiz
encontre um povo feliz
na mais perfeita harmonia,
em silente sintonia
com muita luz, esplendor,
com as bênçãos do Criador
e a campeira sinfonia.







FIM DE FESTA


 
 
Fim de festa é só afeto,
é harmonia entre os lotes,
onde até os sacerdotes
vem rezar por Bento e Netto.
É o desmanche de tetos
que nos cobriram do frio.
No fim de festa os bugios
já metem a mão em cambuca
e o jacaré dá garupa
pra onça cruzar o rio.


*Até o ano que vem, amigos e amigas
que festejam com orgulho a Guerra dos Farrapos.
 
 
 



QUEM VEM AO MUNDO PELO CHÃO DE AREIA




I
Pele de bugre, de marrom praieiro,
matiz de bronze destes memoriais,
couro curtido dentre os canaviais
de quem labuta ao sol de janeiro. 

Jeito açoriano no falar cantado,
sabe dos ventos que irão soprar,
conhece as manhas deste velho mar,
não sai pras lidas sem Xangô ao lado.  

É um daqueles que nasceu dos rastros
destas tropeadas sob a luz dos astros
donde, dos pousos, se forjaram aldeias.  

Talvez por isso que transcenda os tempos, 
do mesmo jeito, sem "frouxar"  um tento,  
quem vem ao mundo pelo chão de areia.  

II 

Traz no seu peito o troar liberto
de mil tambores, essa voz dos morros,
pelos quilombos a pedir socorro
pra um povo negro de destino incerto. 

Maçambiqueiro mas encontra vasa
pra uma milonga de findar o dia
quando a saudade pede cantoria
que traga almas pra rondar as casas.  

Tal como cruza oceano e rios,
numa canoa de gingar bravio,
enfrena um pingo e o estribar campeia. 

E sai com pose de gaúcho alçado
chapéu na testa, laço apresilhado,
quem vem ao mundo pelo chão de areia. 

III 

Do solo guapo de aridez sulina,
brotaram nomes que timbraram eras,
que fizeram história com ardor de feras,
cavalarianos de cruzar por cima. 

No viver de hoje, onde uma agonia
vem tomando conta de nosso universo
eles se acalmam recitando versos
pelas ribaltas de uma Sesmaria. 

Ah se eu pudesse, se me fosse dado
esse direito de escolher meu fado
jamais saía desta volta e meia. 

E ao findar a estrada, se não for demais,  
queria, ao entorno de meus ancestrais, 
volver pra terra pelo chão de areia.

* Poema classificado em 3º lugar na 25ª Sesmaria de Osório


 
 
 
 
 

ESTÂNCIA DO CORAÇÃO



 
Eu fui assim, cruzador
qual vento nos alambrados...
Fiz da cantiga meus brados,
do campo fiz corredor.
Rédeas soltas, campeador
dos farranchos do rincão.
Gargalhei da solidão
cruzando o pago nativo
até que parei, cativo,
da Estância do Coração.
 
Minhas noites de índio vago
ficaram ternas, mais longas,
das rancheiras fiz milongas,
dos sofrenões fiz afagos.
Não me perco embriagado
por sonhos de vastidão.
Meu peito responde: - Não!
Não mais o mundo em loucuras!
Fiquei peão das ternuras,
da Estância do Coração. 
 
 
 

ALEGRIA EM DOSE DUPLA




O tempo está carrancudo
mas Paul MacCartney me aguarda.
Desde a minha Jovem Guarda

sou fã destes cabeludos.
Por isso, com chuva e tudo,
vou bombear outra cultura.
Eu, hoje, estou nas alturas:
ver o show, um relicário,
e curtir o aniversário
desta mulher que me atura.



 

SAIU IGUALZITO AO PAI


 

Um dia já fui assim,
hoje estou velho e tordilho,  
mas na estampa de meu filho
renasce muito de mim.
Ciclo da vida sem fim
que Deus nos dá por legado.
Na foto lembro os ditados:
".....de peixe, peixinho é;
fruto cai perto do pé;
filho de tigre é pintado."
 
 
 
 
 
 

FLOR DO CAMPO


Na foto Doralice Ribeiro de Souza, minha mãe.

Os meus sonhos se avivaram
de luzes, povo e distância
quando deixei minhas ânsias
seguirem seu rumo em frente.
No lugar onde nasci
ficaram restos de mim
e uma tristeza sem fim
nos olhos de minha gente.

Busquei horizontes largos,
cruzei fronteiras e serras,
na solidão das taperas
me fiz homem ainda guri.
Fui braço nas semeaduras,
fui folha ao sopro do vento
e pra contar falta tempo
histórias que já vivi.

Eu vi milênios de fé
nos arcanjos dos vitrais,
nas portas das catedrais
vi orgulho e vi pobreza.
Tive mulheres formosas,
razões de perder a calma,
tive outras que na alma
guardavam sua beleza.

De tudo, o que mais recordo
é alguém de cabelos brancos,
pureza de flor-do-campo,
ternura sempre ao dispor.
Minha Mãe, quanta saudade,
que trago tempos após....
Ainda escuto tua voz
falando coisas de amor.
 
 
 

FILHOS DE SÃO FRANCISCO


Um filho de São Francisco,
serrano por excelência,
reponta sua querência
mesmo longe do rincão.
Olhar altivo e sereno,
sem desfazer de ninguém,
mas mostrando de onde vem
já no aperto de mão.

Um filho de São Francisco
é cantor de verso puro,
sabe sair do apuro
na contravolta, por cima.
Aprendeu na lida rude
segredos do pastoreio,
é um moirão de rodeio
que lasca mas não termina.

Um filho de São Francisco
não deve temer o frio
e no roncar dos bugios
sabe de baile e de chuva.
E por falar em fandango,
um serrano verdadeiro
não esquece dos gaiteiros
que vieram lá da Criúva.

Um filho de São Francisco
é irmão da natureza,
deu braçada em correnteza,
quebrou vento em coxilhão.
Por isso se fortalece
no singrar de cada aurora,
quem se criou campo a fora
não morre de solidão!

 
 
 
 

MULHER GAÚCHA




Com olhos profundos que cruzam neblinas,
sorriso que encanta, em tons de carmim,
és luz desta terra onde a pampa termina
e os lençóis de geada branqueiam o capim.

Teu jeito é herança da raça tropeira,
nas fontes mais claras matastes a sede,
e sempre honrando tua gente altaneira
que vive em retratos nas velhas paredes.

Tu viu das janelas as fases da lua
e viu os teus filhos que bateram asas...
E quando peleavam nas lutas charruas
tu foste um esteio cuidando das casas.

Ninguém percebeu o teu choro escondido,
- a mágoa em teu peito se nasce não cresce!
De pronta pra lida ao primeiro mugido
e o sonho rebrota na força da prece.

E hoje vivendo num mundo moderno
não fica no rancho fazendo oração,
se vai pra batalha, verão ou inverno,
é mais que um esteio, é o próprio galpão.

És mãe, poetisa, doutora, campeira,
esperança de um tempo zebruno e rançoso.
Mulher do meu pago, mulher brasileira,
flores que se abrem num chão arenoso.

Mulheres gaúchas, tão belas, tão vivas,
a vossa existência motiva meus versos!
O velho Rio Grande é a querência nativa
das prendas mais lindas de todo universo.


LAPIDANDO A PEDRA BRUTA


 

LAPIDANDO A PEDRA BRUTA 

Me criei meio a lo bruto
nos fundões deste Rio Grande,
com olhos rubros de sangue,
e pegadas de matuto.
Jamais perdi um minuto
buscando me conhecer...
- Pensava: vou apodrecer
com estas baldas de chiru
pois quem nasceu pra tatu
cavocando há de morrer! 
 
Pra qualquer fanfarronada
eu sempre peguei parelho...
Com reumatismo num joelho
e uma costela trincada,
dancei por três madrugadas
num bailesito campeiro!
Nunca gritei por parceiro,
quando bateram meu pó,
que uma coisa é cantar só,
outra é cantar com gaiteiro.... 
 
Depois de tantas qüeradas
por este mundo profano
eu fui vendo que meus planos
iam rumando pro nada.
Então garrei a estrada
e me embretei no povoeiro...
Eu levei, neste terreiro,
puaços de toda a sorte
até achar o meu norte,
na profissão de Pedreiro.  
 
Pra quem tinha as mãos forjadas
por cordas de viola e laço,
o prumo, o cinzel e o maço,
são ferramentas pesadas.
Mas a pedra desbastada
me dava satisfação.
Daí que veio a lição
que eu uso a toda a hora,
que “não precisa de espora
quem cavalga na razão”. 
 
E assim, sem desperdícios,
trabalhei o quanto pude...
Ergui galpões a virtude,
cerquei de taipas meus vícios.
Tendo sempre por princípio
de a ninguém fazer o mal
tratei todos por igual
e com apoio e alento
fui me domando por dentro,
foi-se entregando o bagual. 
 
Pedreiro! Que coisa linda!
Que oficio de valor!
Dar sentido e esplendor
a construção que não finda.
Sempre há outra e outra ainda...
Vida! Morte! Céu por teto...
O esquadro, o traço reto,
o compasso, a exatidão,
cumprindo sempre a missão
que vem do nosso Arquiteto. 
 
Ah, Pedreiro... Que ciência,
nivelar, dar corpo e forma
a pedra que se transforma
apesar da resistência
e ladrilhar, com paciência,  
o mosaico em simetria.
Pensem bem na harmonia,
no equilíbrio das colunas...
Essa arte é uma fortuna
de encanto e sabedoria. 
 
Michelangelo fez da pedra
a mais sublime escultura
e na pedra as escrituras
foram ditando suas regras.
E quem é que não se entrega
a um tiro de boleadeiras?
Três pedras, todas certeiras,
ruflando ao sabor do vento,
arma do gaucho nos tempos
da pampa larga e guerreira. 
 
Cada um em seu viver
tem uma pedra pela frente
e só depende da gente
desta pedra oque fazer.
O mau lhe atira pra ver
o estrago que alcança.
Nela o cansado descansa,
o distraído tropeça,
em pedra Pedro começa
sua catedral de esperança. 
 
Minha pedra estou talhando,
ainda não terminei,
mas posso ver que mudei,
e quero seguir mudando.
Recaio de vez em quando
mas me levanto por cima.
Ser gaudério é uma sina
mas isto tudo faz parte.
A perfeição é uma arte
que a gente nunca termina. 
 
Hoje sou mestre-de-obras...
Só não larguei das bombachas.
Seguido um filho me acha
fazendo algumas manobras
na gaita que se desdobra
num bugio de capataz.
Vivo bem pois vivo em paz
com minha fraternidade
e a cordeona é só saudade
de um tempo bom de rapaz. 
 
 
 
 

BURRO VELHO



Por vezes me torno chato
de tanto cantar minha terra
São Francisco lá da serra
cercada de rios e matos.
Mas.. igual garganta de sapo
bate um coração plebeu
pelo lugar que nasceu
dando razão a ciência
que "jamais troca a querência
burro velho que nem eu".
 
 
 
 
 
 

FILHOS





FILHOS

Meu filho deixou "as casas",
achou por bem ir embora
e no singrar da aurora
com esforço bateu asas.
Na malinha velha e rasa
juntou sua vida singela.
Atravessou a cancela,
olhou, por fim, para trás
e lá se foi meu rapaz...
- Eu vi tudo da janela. 

Deixou aqui suas lembranças,
seu cavalo, seus cachorros
e já no segundo morro
se sumiu o meu confiança,
o meu guri, minha herança
de sangue, honra e sequência.
Mas levou junto a essência
daquilo que pude dar,
das coisas simples de um lar
e o respeito a querência. 

Na verdade havia um tempo
que ele pensava nisto,
camperear algum serviço
que lhe provesse o sustento
pois ninguém vive do vento
soprando nos tarumãs.
Com cheiro de picumã
encroado na camisa
se foi, cruzando divisas,
sem saber do amanhã. 

E nós ficamos tapeando
essa dor de um filho ausente,
uma saudade inclemente
a cada dia aumentando...
Hay, nos seus trastes, pairando
recuerdos que calam fundo.
Então, assim, num segundo
lembro o que disse um poeta,
Kallil Gibran, O Profeta,
- Os seus filhos são do mundo! 

- São filhos e filhas das ânsias,
vem por vós, mas não de vós.
Não são seus, nem dos avós,
são das ruas, das distâncias.
Amparai a sua infância
sem ocultar os perigos,
sejais parceiro, amigo,
podeis dar o vosso amor
mas não lhes tire o esplendor
de andejar longe do abrigo. 

Pode ser... Pode até ser,
mas até meu chimarrão
ando largando de mão
por matear sem ter prazer.
O rancho, no entardecer,
é um manancial de tristeza,
não tem cor a natureza,
ficou mudo o violão
e se agranda a solidão
com um prato a menos na mesa. 

E pensar que fiz igual
quando deixei os meus Pais...
Nem reparei nos seus ais
e hoje sofro o mesmo mal.
Assim é a vida, afinal,
tudo que nasce tem fim.
Mas... queria ter dito assim
pro meu eterno menino:
- Que vá trançar teu destino
mas volte, um dia, pra mim!  

 

 

 

 

ENTRE PARCEIROS





O que se leva da vida
são estes lindos momentos
junto a parceiros que o tempo

conservou a moda antiga.
São milhos da mesma espiga,
touros do mesmo potreiro.
Tem Bertussi, tem Ribeiro,
Artur, Hermínio, Juarez...
Dois são calmos mas tem três
que nasceram Contendeiros.
 
 
 

DOIS BEIÇUDOS Matando a Saudade


 




Aproveitei o feriado
pra prosear com este vivente
a quem tenho mais que gente,...

meu "moro velho", alquebrado.
Poucos dentes, descarnado,
solitário passa os dias.
Sei que sentiu alegria
ao enxergar o seu dono.
Coisa triste é o abandono,
coisa boa é a parceria.
 
* e se é assim com animais, imaginem com pessoas!
 
Foto: Thiago Vallim.
 
 

 

COMO CANTAVA HONEYDE BERTUSSI:


"JÁ FUI BOM"
 
 Este vivente é o goleiro de calção branco

Fui goleiro, sim senhor,
lá do Atlético Serrano,
clube campeão, por dois anos,
do Estadual Amador.
Mesmo tendo algum valor
era baixo pra função.  
Mas, no futebol de salão,
era um gato (na destreza).
Hoje só faço defesas
desta nossa tradição.
 
 
 
 
 
 

BAIANO CANDINHO


Esquadrão Josaphat, na Revolução Federalista
Baiano Candinho é o penúltimo sentado a direita
 
O causo que ora relato
escrito assim como está,
é história com "H",
como três mais três são seis.
Fala de quem fez as leis
pela força de seu braço.
Me guiou Fernandes Bastos
com o seu Noite de Reis.

É um livro, é uma obra,
que refaz a rude trilha
ao chegar nas Três Forquilhas
desertando de uma guerra
de uns tauras, cinco qüeras,
vagando sem mãe, sem pai,
que vinham do Paraguai
de volta pra sua terra.

Eram recrutas baianos,
nordestinos, coisa e tal,
brasileiros afinal
já que a nação é só uma.
Se perderam nesta bruma
de andar no mundo sem nada
e saíram da estrada
que os levaria a Laguna.

Martinho Pereira dos Santos
era um dos desgarrados
e seu nome de soldado
era Cândido Silveira.
Este foi a sementeira
dos fatos que agora alinho
vulgo Baiano Candinho
de estirpe bochincheira.

Se entreveraram, estes cinco,
num reduto de "lemão",
um povoado em formação,
germânicos de sangue puro.
Também tinha uns "pelo-duro"
que não valiam um trocado.
Viviam roubando gado
pra garantir o futuro.

A convivência é que dita
os rumos pra quem não tem.
No início, tudo bem,
ergueram taipa em Contendas,
foram peões de fazenda,
rondaram tropa ao relento,
mas não durou muito tempo
pra virar balcão de venda.

O Candinho era o mais guapo,
mais ligeiro, mais valente,
por isso, seguidamente,
era acusado em vão.
Era o motivo, a razão,
de tudo quanto era estouro
as vezes livrava o couro,
outras o couro do irmão.

Começa um tempo de mortes,
de tocais, correrias,
a pacata Três Forquilhas
vira terra de ninguém.
No altar da serra também
(e por todo o Josaphat)
eles mandavam por lá
e todos dizendo amém.

O Candinho era disposto
mas índio bom e parceiro
Fazia tafonas, taipeiro,
sempre em trabalho pesado.
Por patrões foi explorado,
acusado de ladrão,
por ser chefe de Esquadrão,
era seguido e rondado.

Viu os filhos na miséria,
o irmão assassinado,
na sua honra foi tocado
ao bolirem com a família.
Uma serranada caudilha
pintava e bordava os panos
então, após alguns anos,
ele volta à Três Forquilhas.

Juntou-se com a velha turma
em negociatas, ligeiros,
repontando gado alheio,
levando tudo por diante,
tiroteando com volantes
que vinham rumo da serra.
O que aprendeu pela guerra
Candinho usou neste instante.

Seu nome ficou famoso,
nas bodegas comentado,
era o vilão do Estado,
protetor de "coronéis",
Vinham gente dos quarteis
pra mode manda-lo a pique,
ele, o enteado Henrique,
e mais uns oito fiéis.

Nas costas do Rio Carvalho,
Itati, nas bananeiras,
o Candinho fez zoeira
palmeando um facão três-listras.
Foi chefe federalista,
maragato com afinco,
patrão do Bando do Pinto
pra ninguém baixou a crista.

Mil oitocentos e noventa e oito.
Noite de Reis, cantorias,
por aquela fregueisa
vinha o Terno em canto fino
a saudar o Deus Menino
num versejar que conforta.
o Candinho abriu a porta
e topou com seu destino.

Foi morto pelos cantores
numa certeira emboscada.
Hoje a lenda está formada:
- Foi herói ou ladrãozinho?
Descendentes dos vizinhos
dizem que tudo é verdade
e cresce a curiosidade
sobre o BAIANO CANDINHO.
 
 
 


ORELHANO



ORELHANO
 
- Em homenagem ao Sítio Orelhano, de propriedade dos primos Vera e Hélio.
 

No linguajar campechano
toda rês ou animal
que não tem marca ou sinal
é chamado de orelhano.
Já no falar do paisano,
do índio xucro e redomão,
orelhano é o gauchão
que anda aí, sem fronteira,
sua adaga é sua bandeira,
Deus no céu é o seu patrão. 

Mas pra nós, primos e primas,
Orelhano é um lugar
é a sede, o segundo lar
dos entes da Josefina.
É um sítio, coisa fina
em meio a rusticidade.
É onde a hospitalidade
refloresce junto as plantas
e ecoam das gargantas
cantorias de amizade. 

Orelhano é tradição,
é o vinho em meio ao frio,
é o local em que  os bugios
vem comer em nossas mãos.
Orelhano é integração
de bicho, de mato e gente,
é o encontro dos parentes
recordando antigas eras
aonde o Hélio e a Vera
vão regando estas sementes. 

Orelhano é a querência
pra tantos que andavam a esmo
se encontrar consigo mesmo
e saber da procedência.
Ali se revive a essência
de quem se foi pra outro plano....
Longa vida ao Orelhano,
ventre de festas tão belas
e nunca teve tramelas
pros Donatos haraganos.